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domingo, 24 de janeiro de 2016

EM - Qualidade da água piora e causa preocupação na Lagoa da Pampulha



Especialistas apontam que agravamento afeta todo o ecossistema, provocando contaminação e extinção de animais. Apenas os mais resistentes 
conseguem sobreviver

Reportagem: Mateus Parreiras


O caldo espesso de algas verdes e esgoto que toma conta da superfície da Lagoa da Pampulha afeta ainda mais do que se imagina o fundo da represa e o todo o ecossistema desse cartão-postal de Belo Horizonte, candidato a patrimônio cultural da humanidade. Os micro-organismos que roubam o oxigênio e a luz da água e os lançamentos de dejetos domésticos e industriais fazem de todo o conteúdo do lago um meio inóspito, onde somente os animais mais resistentes conseguem sobreviver, ainda que contaminados. Com câmeras aquáticas que vasculharam o fundo do reservatório e em embarcações que percorreram sua extensão, a reportagem do Estado de Minas mostra como é o ambiente degradado, onde se adaptaram para sobreviver jacarés-do-papo-amarelo, capivaras, cágados, peixes e aves. Situação que, apesar de investimentos que somam R$ 1 bilhão desde a década de 1990, só tem piorado, como mostram os últimos dados de análises da qualidade da água. Não bastassem animais intoxicados, os peixes irregularmente pescados e altamente contaminados estão sendo vendidos a frigoríficos, que os comercializam, numa grave denúncia de crime contra a saúde pública.

Mesmo depois de a Copasa ter ampliado a interceptação de esgotos nos últimos três anos – de 65% para 87% dos lançamentos –, nesse mesmo período a qualidade da água do lago só piorou, de acordo com as análises feitas pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam). Levando-se em conta o resultado do pior período de seca, que é quando mais concentrados os poluentes estão, desde 2013, a poluição da lagoa aumentou 67%. Dos 21 parâmetros avaliados, 14 foram piores entre julho e setembro do ano passado em relação ao mesmo período de 2014 e 2013 (veja quadro). Para o coordenador do Laboratório de Gestão Ambiental de Reservatórios da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ricardo Motta Pinto Coelho, isso se deve aos mais nocivos lançamentos de poluentes não estarem concentrados no esgoto doméstico despejado pela população e que vêm sendo interceptado pela Copasa. “Há milhares de ligações clandestinas de indústrias lançando um volume enorme de efluentes no reservatório e simplesmente não são fiscalizadas. Não adianta apenas culpar o esgoto dos aglomerados”, afirma.

Apesar de adaptados ao ambiente encontrado atualmente, até mesmo os jacarés, capivaras, cágados, peixes e aves podem ter sua saúde deteriorada com a contínua piora da qualidade ambiental, caso as promessas de purificação do lago mais uma vez não saiam do papel. Segundo pesquisa do professor Ricardo Coelho, pelo menos quatro espécies de zooplanctons que serviam de alimento a outros animais foram extintas do reservatório pela poluição. Outras seis espécies de peixe já não são mais encontradas nas águas. Por todo o espelho d’água veem-se boiando aves aquáticas e peixes mortos. “Atualmente, são animais que estão contaminados por metais pesados e tóxicos e isso é um acúmulo que no longo prazo pode trazer outros efeitos e impedir que vivam na Pampulha se a poluição piorar”, pondera o engenheiro de pesca Luiz Alberto Sáenz Isla, especialista em aquicultura e mestre em ecotoxicologia pela USP.

Para especialistas, um dos animais que demonstram adaptação às condições da Pampulha é o jacaré-do-papa-amarelo. “Esse réptil é um predador ativo que está no topo da cadeia alimentar e não aparenta estar enfraquecido pela poluição. Sua proximidade com os homens e a aparente apatia nos banhos de sol fazem com que se pareça dócil e encorajam contatos que podem ser repelidos a mordidas”, alerta o biólogo responsável pelo Setor de Répteis e Anfíbios da Fundação Zoobotânica da capital, Luís Eduardo Coura.

Reportagem do Estado de Minas mostra o fundo da Lagoa da Pampulha:


PESQUISA Segundo os biólogos da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), a dieta principal do animal consiste de peixes. São estimados mais de 20 indivíduos habitando os três lagos que conectados formam a Pampulha. Os hábitos reprodutivos, o domínio de território, o número atual de exemplares e as espécies que habitam o reservatório estão sendo levantados em trabalho da Faculdade de Veterinária da UFMG. Naquele ponto, a reportagem sondou o fundo do lago usando uma câmera içada por vara de pesca. A profundidade era de apenas um metro e meio. Mas a densidade de algas e material orgânico em suspensão permitiram visibilidade de poucos centímetros e o registro de um borrão verde salpicado de partículas.

O mesmo se repetiu na área próxima à estátua de Iemanjá, no Bairro São Luiz. Na região da Igreja de São Francisco de Assis, a câmera encontrou um o terreno arenoso no fundo. Na Casa do Baile, localizou os alicerces de pedra da ilha artificial. Próximo ao vertedouro, as rochas de sustentação de uma antiga rampa de lançamento de barcos apareceu nas profundezas.


EM - contaminados da Lagoa da Pampulha são vendidos ilegalmente em Belo Horizonte



Mesmo proibida, pesca ocorre normalmente na Lagoa da Pampulha e muitos exemplares são comercializados ilegalmente em frigoríficos da capital. 
Consumo traz vários riscos à saúde

Reportagem: Mateus Parreiras


As placas fincadas na água suja com lixo boiando avisam que a pesca e a natação são proibidas na Lagoa da Pampulha. Mas a pescaria das tilápias, carpas e cascudos do reservatório, que acaba tolerada por se pensar tratar de uma atividade de subsistência, esconde um perigo contra a saúde pública. Dezenas de pessoas munidas de varas lotearam as margens da orla e muitos deles vendem todos os dias para peixarias e frigoríficos de diferentes regiões da capital de 12 a 15 exemplares cada, animais contaminados por metais pesados e tóxicos. A informação foi verificada pela reportagem do Estado de Minas em conversa com os próprios pescadores, que foi gravada por uma câmera escondida. Um dos homens conta que cada um tem a sua “praça”, ou seja, uma feira ou estabelecimento que compra os peixes sem exigir certificado de procedência, como exige a Vigilância Sanitária Municipal.

Um deles, um homem de 34 anos, disse que sua “praça” é a José Verano da Silva (Praça da Febem), no Barreiro de Cima, mas não especificou qual estabelecimento compra a mercadoria. “Minha média é de 12 tilápias por dia, mais ou menos. Vendo a R$ 10 o quilo”, conta. Sobre os perigos de contaminação dos animais, o pescador demonstrou não ter qualquer receio pela sua saúde ou pela de quem compra. “Pesco aqui (na Pampulha) desde os 12 anos. Sempre comi desses peixes e estou muito bem. É isso que garante o pão do meu filho e da minha família”, afirma.

Em análise desses peixes feita pelo doutorando da UFMG, Luiz Alberto Sáenz Isla, engenheiro de pesca peruano especializado em aquicultura e mestre em ecotoxicologia pela USP, ficou comprovado que esses exemplares continham acúmulos de elementos nocivos que prejudicam a saúde de quem os consome por algum tempo. No caso das tilápias, a legislação sanitária brasileira tolera concentrações de até 0,3 partes por milhão (ppm) na musculatura do animal. Os exemplares da lagoa fisgados pelos pescadores e comprados para fazer a análise apresentaram 1,5ppm, ou seja, cinco vezes mais do que o limite para o consumo saudável. Outro metal pesado encontrado em concentrações exorbitantes foi o zinco, que chegou a ficar retido na proporção de 700ppm, quando o tolerável são 50ppm, índice 14 vezes inferior aos dos peixes da lagoa da capital mineira. Foram ainda encontradas cargas de cádmio e arsênio superiores ao tolerado, mas em medida não exata (veja ao lado).

“Esse é um problema de saúde pública. A prefeitura já proibiu esse consumo. A pessoa que vende para o frigorífico comete um atentando contra a saúde pública. A coisa muda mesmo, porque isso é delito. É coisa de polícia”, considera o especialista.

No organismo humano, em quantidades grandes equivalentes ao consumo continuado desse tipo de alimento contaminado, a pessoa pode sofrer vários prejuízos à saúde. Doses elevadas de chumbo podem provocar anemia, dores de cabeça, falta de apetite, dores abdominais e prisão de ventre. Em crianças e idosos, é possível haver convulsões e coma. O zinco pode trazer dores de cabeça, vômitos, diarreia, redução da cicatrização e da eficácia de antibióticos. O arsênio traz o aparecimento de feridas que não cicatrizam, gangrena, danos a órgãos vitais e câncer. Já o acúmulo de cádmio, um tóxico de ação cancerígena, pode causar hipertensão, doenças do coração e reumatismo.


PENA O pescador que vende e o comerciante que compra e distribui esse tipo de mercadoria estão sujeitos a responder por crime contra a economia popular por “expor à venda ou vender mercadoria ou produto alimentício cujo fabrico haja desatendido às determinações oficiais quanto ao peso e composição” e ainda podem responder por crime contra a saúde pública, somando penas de oito meses a três anos de prisão. Responderiam ainda administrativamente à Vigilância Sanitária, que pune o comerciante com lavratura de uma advertência, termo de intimação, apreensão de produtos, multa ou até a interdição do estabelecimento. A reportagem procurou quatro estabelecimentos na região da praça citada pelo pescador, mas nenhum admitiu comprar peixes sem procedência.

A Secretaria Municipal de Saúde não informou se algum peixe contaminado da Pampulha foi encontrado em comércios do ramo, mas afirma que “estabelecimentos que comercializam produtos de interesse da saúde, tais como açougues, peixarias e supermercados, são alvo constante da fiscalização sanitária”.

Confira o vídeo com o flagrante feito pela reportagem do Estado de Minas

 

terça-feira, 16 de abril de 2013

EM - Lagoa da Pampulha vai parar de receber esgoto até o fim de 2013, diz Copasa



Companhia vai realizar um canal e as residências serão ligadas a ele por uma rede coletora. Moradores terão de pagar para terem o sistema conectado


A luta da Prefeitura de Belo Horizonte para despoluir a Lagoa da Pampulha continua. Nesta terça-feira, a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) apresentou ao prefeito Marcio Lacerda (PSB) como está o andamento das obras de saneamento na capital. Durante o encontro, o presidente da companhia, Ricardo Augusto Simões Campos, garantiu que até dezembro deste ano a lagoa vai deixar de receber o esgoto.

A primeira etapa das obras de despoluição estava prevista para ser finalizada em junho deste ano. Porém, sofreu um atraso devido à remoção de 300 famílias em Contagem, na Grande BH. Nesta fase é realizado pela Copasa o tratamento e bloqueio do esgoto que é lançado aos oito cursos d'água que abastecem a lagoa.

Hoje, 30% do esgoto jogado na lagoa é de Belo Horizonte e 70% de Contagem. As obras são feitas para conter e tratar a água. Um canal será feito pela Copasa e os moradores terão de pagar uma taxa para a residência ser conectada a ele. Essas ligações são chamadas de redes coletoras.

Ao todo, são aproximadamente três mil imóveis que ainda não fizeram a ligação. A maioria das casas ainda utiliza a fossa séptica. “O sistema de rede coletora individual cabe à pessoa colocar. Será uma iniciativa de cada pessoa. Existem ações tanto da Copasa tanto da Prefeitura para ajudar os moradores da baixa renda da região”, explica Ricardo Augusto.

O prefeito Marcio Lacerda acredita que os prazos serão cumprido. “A meta é que a região tenha 100% do esgoto tratado. Estão sendo investidos R$ 30 milhões para a construção das rede coletoras”, afirmou.

Poluição está cada vez pior

Um laudo do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), divulgado pelo Estado de Minas, constatou que os índices de poluição na Lagoa da Pampulha são os piores desde 2006. No entanto, mesmo com a perspectiva ruim, a administração municipal reiterou o compromisso em despoluir a lagoa para 2014.

terça-feira, 2 de abril de 2013

EM - Gerais - Por causa da poluição, qualidade da água da Pampulha nunca foi tão ruim



Indicadores de poluição medidos pelo IGAM são os mais negativos da história e põem em xeque limpeza do cartão-postal de BH até a Copa 2014

Mateus Parreiras


Pneu, garrafa PET e embalagem de detergente; cabo de vassoura, pé de chinelo e sacola plástica; pedaço de isopor, animal morto e restos de poda. Poderia ser a descrição de um lixão, mas é o que se pode avistar no que ainda é conhecido como espelho d’água da Lagoa da Pampulha. E o que se vê boiando pode não ser o pior: apresentando contaminação por esgoto doméstico em todos os 26 trechos monitorados da bacia, a água de um dos principais símbolos de Belo Horizonte jamais esteve em condições tão ruins em relação aos índices de poluentes, segundo o mais recente laudo do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), referente ao terceiro trimestre de 2012. A soma dos conceitos ruim e muito ruim do Índice de Qualidade de Água (IQA) chega a 84,6% das amostras analisadas.

A medição supera em 9,7 pontos percentuais a média dos níveis ruim e muito ruim dos seis anos de medição (74,9%), e em 1,3 ponto a pior marca da história, de 83,3%, atingida em 2011. A degradação que se alastra é ingrediente a mais na corrida contra o tempo para despoluir a represa até a Copa de 2014. A Copasa concluiu apenas 40% da canalização de esgotos que caem diretamente na bacia. A Prefeitura de Belo Horizonte promete editais para combater o assoreamento e a poluição para os próximos dias.

Enquanto as intervenções não fazem efeito, o laudo do Igam apresenta também o pior nível de contaminação por tóxicos como amônia, arsênio, bário e cádmio, compostos que fazem mal à saúde humana e envenenam organismos aquáticos. O nível mais crítico de contaminação, que leva em conta violações acima de 100% do tolerado pela legislação do Conselho Nacional de Meio Ambiente, abrange 69,2% da bacia. “É um dado muito preocupante, porque significa que as pessoas continuarão expostas a esse tipo de poluição mesmo depois das ações previstas para melhorar a qualidade da lagoa, pois metais pesados e outros tóxicos se depositam nos sedimentos profundos”, explica o coordenador do Laboratório de Gestão de Reservatórios (LGAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ricardo Motta Pinto Coelho.

Pela primeira vez o estudo comprovou a existência de cinco espécies de cianobactérias potencialmente tóxicas na lagoa, principalmente no Ribeirão Pampulha, que recebe a água que escoa do reservatório e a lança no Ribeirão do Onça. De acordo com o biólogo Rafael Resck, mestre em ecologia aquática e consultor em recuperação de ecossistemas, o contato direto da pele com as cianobactérias pode provocar irritação, erupções, inchaço dos lábios, irritação dos olhos e ouvidos, dor de garganta, inflamações no rosto e até asma. “Beber água contaminada pode causar náuseas, vômitos, dores abdominais, complicações no fígado e fraqueza muscular, podendo levar inclusive à morte, se houver concentração elevada de cianotoxinas.” O Igam informou por meio de nota que ainda avalia a toxicidade das cianobactérias encontradas.

A apenas 435 dias da abertura da Copa do Mundo de 2014, especialistas desconfiam da possibilidade de que as obras de despoluição fiquem prontas a tempo. O coordenador do LGAR, Ricardo Coelho, considera modesto o índice de 40% das obras de interceptação de esgotos nos córregos de BH e Contagem, para evitar o despejo clandestino de dejetos na bacia. “O prazo é muito apertado. E, enquanto isso, a qualidade das águas vai só piorando.”

De acordo com a Copasa, as interceptações serão concluídas até dezembro, levando 95% do esgoto da Lagoa da Pampulha para tratamento. Além dos recursos do estado, o governo federal, via PAC II, destinou R$ 102 milhões para a implantação de redes interceptoras e estações elevatórias. A PBH informou que negocia com o Banco do Brasil financiamento de R$ 120 milhões para ações de limpeza. O processo licitatório para o desassoreamento terá propostas abertas na quinta-feira. A previsão é de que a intervenção propriamente dita se inicie em julho e termine em maio de 2014. O tratamento da água da lagoa terá edital lançado em maio e início dos trabalhos em agosto.